quinta-feira, 9 de maio de 2013

Negócio Social: fazer o bem e dar lucro - O caso da Raízes Desenvolvimento Sustentável

Na semana passada, eu tive a oportunidade de conversar com a Marianne Costa, uma das empreendedoras sociais que criou a Raízes Desenvolvimento Sustentável.

Crédito: Agência Na Lata
Marianne Costa e Mariana Madureira: criadoras da Raízes Desenvolvimento Sustentável

A Raízes desenvolve projetos de turismo sustentável e viagens de experiência e comercializa artigos de artesanato produzidos pelas mulheres do Vale do Jequitinhonha. Em 2012, foi uma das finalistas do Prêmio Empreendedor Social da Folha, comprovando o grande sucesso do projeto e a importância do seu impacto no Vale.

Hoje, a Raízes carrega também outra bandeira, a do setor 2,5. As empreendedoras acreditam no negócio social, que gera impactos positivos para a comunidade, mas também dá lucro, o que o diferencia das Organizações Não-Governamentais (ONG).

A Marianne foi muito paciente e gentil e me contou um pouquinho da história da Raízes e dos principais desafios que ela e sua sócia, Mariana Madureira, enfrentam como empreendedoras sociais. 

1) Como surgiu a ideia de criar a Raízes?
A nossa turma foi a primeira turma de turismo na UFMG. Fomos nós que criamos a empresa júnior lá e sempre tivemos vontade de trabalhar com uma empresa voltada para o Desenvolvimento Sustentável em comunidades carentes. Quando formamos, fomos trabalhar em outras empresas fazendo projetos e em 2006 criamos uma empresa de consultoria, para desenvolver projetos de turismo sustentável. Entretanto, percebemos que não havia demanda pro tipo de projeto que nós verdadeiramente queríamos desenvolver, que eram projetos de desenvolvimento regional com base no potencial dessas regiões para gerar renda para as comunidades locais. Então, decidimos nós mesmas criar uma empresa para o desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha, baseado na comercialização do artesanato produzido na região e em turismo de experiência, com contato direto com os moradores e as artesãs.

2) E por que o Vale do Jequitinhonha?
Nós sabemos que o Vale é uma das regiões mais pobres de Minas Gerais e em várias feiras de artesanatos que visitávamos, sempre ficávamos encantadas com a beleza do artesanato produzido, principalmente a cerâmica. Víamos que apesar da baixa renda, a região tinha uma riqueza cultural imensa. Identificamos que havia um potencial maior de comercialização e decidimos criar uma loja virtual. A ideia era criar a ponte entre as artesãs e o público potencial.



Fotos cedidas pela Raízes Desenvolvimento Sustentável
O Vale do Jequitinhonha e as peças produzidas pelas artesãs

3) Como foi feito o contato com as comunidades?
Já tínhamos contato com algumas mulheres mais faladeiras, que conhecíamos nas feiras de artesanato que visitávamos, mas antes de irmos ao Vale comprar artesanato pela primeira vez, entramos em contato com alguns órgãos que já atuavam no local. O pessoal do IDENE nos ajudou a mapear algumas associações e então fomos com a cara e a coragem, para comprar os nossos primeiros produtos.

4) Quando vocês chegaram, qual foi a aceitação da comunidade? As pessoas entenderam o que vocês estavam indo fazer lá?
Em geral, as pessoas estavam muito abertas. Entretanto, nós tivemos que explicar que nossa intenção era praticar o comércio justo, que queríamos pagar o preço justo. Muitas queriam nos dar descontos ou entregar as peças apenas como artigos de mostruário. Muita gente faz isso: vai lá, pega artigos de mostruário, fala que vai encomendar mais peças depois e nunca mais aparece. Entretanto, essa não era a nossa intenção. As regras do comércio justo falam que os riscos devem ser assumidos pelo lado mais forte, que no caso, éramos nós, que queríamos repassar os produtos ao consumidor final. Então compramos tudo com nosso capital e não aceitamos descontos, o estoque tinha que ser nosso. Explicamos a elas que aquele trabalho tinha um grande valor e que elas deviam ter consciência disso, manter o preço justo.

5) Como vocês chegaram nessa definição do preço justo?
A maioria dessas comunidades já recebeu treinamentos do SEBRAE. Eu fiquei até impressionada com como o SEBRAE tem uma capilaridade boa e já chegou em comunidades isoladas. O pessoal do Sebrae já ensinou essas artesãs como calcular o preço certo, incluindo os custos, impostos e a margem de contribuição delas. Elas têm essa noção, mas muitas vezes não acreditavam no valor do produto delas e acabavam oferecendo descontos, só para garantir a venda. Então, o nosso maior trabalho foi aumentar essa auto-confiança e explicar que elas tinham que calcular esse preço e mantê-lo, para que se beneficiassem e melhorassem a renda da comunidade.

6) Quais foram os principais desafios de vocês no início da empresa?
Ah!, nós éramos muito inocentes. Começamos nosso negócio mais com o coração do que com a razão. No começo, tentamos trabalhar com 16 comunidades, mas percebemos que isso era muito para as nossas 4 mãos. A região do Vale é muito carente, mas se tentássemos ajudar a todos, acabaríamos não ajudando ninguém. Hoje, trabalhamos com apenas 3 comunidades, mas acreditamos que conseguimos gerar um impacto maior em cada uma. Além disso, achamos que seria fácil vender pela internet, porque a estrutura física requerida era menor. Entretanto, enfrentamos problemas de logística, tivemos clientes grandes e percebemos que poderíamos ter problemas com os prazos de entrega. Percebemos também que grande parte do que vendíamos era a história do Vale do Jequitinhonha e das artesãs. Quando participávamos de alguma feira ou exibição e contávamos ao público a história do artesanato, vendíamos muitas peças, mas pela internet era mais difícil sensibilizar as pessoas. Fomos aprendendo aos poucos e descobrindo a melhor forma de trabalhar. Mas isso é um processo contínuo, ainda hoje aprendemos muito, todos os dias.


"Percebemos que grande

parte do que vendíamos era
 a história do Vale do 
Jequitinhonha e das artesãs."

7) Na sua opinião, quais são os principais impactos da Raízes nas comunidades com as quais vocês trabalham?
Muitas mulheres que trabalham com artesanato no Vale o fazem por não terem outras alternativas. Como a região é pobre, muitos homens vão trabalhar na lavoura ou na construção civil em São Paulo ou na Bahia. Muitas vezes, os filhos maiores de 12 anos iam junto com os pais e as esposas ficavam sozinhas. Trabalhando com essas comunidades mais isoladas, percebi como muitas vezes temos uma visão míope de programas como o Bolsa Família. Sem esse tipo de programa, muitas mulheres realmente passavam fome, pois nem sempre os maridos conseguiam mandar parte da renda pra casa. Além disso, com o Programa, os meninos agora terminam a escola e saem de casa somente após os 18 anos. Nesse contexto, a ideia do nosso projeto é criar possibilidades. Queremos mostrar que o artesanato tem valor, mas queremos também que as mulheres exerçam essa atividade porque gostam, porque faz parte da tradição, porque elas percebem que podem ter renda sem sair da região do Vale, mas que isso não seja a única opção que elas tenham. Acredito que o nosso projeto é muito importante para o empoderamento da mulher. Já existem casos em que o marido voltou pra casa e percebeu que tem como gerar renda no Vale. Geralmente, eles também se envolvem no negócio do artesanato e podem ficar com as famílias. Também existem casos de filhas de artesãs que estudaram, mas escolheram trabalhar com artesanato. Além disso, o projeto acaba atraindo outros projetos para a região. Por exemplo, está em fase de planejamento um projeto para construção de caixas-d'água para armazenamento da água da chuva, que, além de resolver o problema da falta de água na região, pretende gerar empregos e manter os maridos perto dessas mulheres. Isso tudo sem falar que o aumento da renda ajuda a manter as crianças na escola, melhorando o nível de educação da população local.


 
Crédito: Agência Na Lata
Empoderamento Feminino: importante impacto gerado pela Raízes Desenvolvimento Sustentável, em linha com os Objetivos do Milênio, propostos pela Organização das Nações Unidas

8) Vocês já pensaram em exportar?
Sim, pensamos, mas ainda não achamos que é viável. Primeiramente, o artesanato brasileiro ainda não é competitivo, se comparado com o do Peru e da Bolívia, por exemplo. Além disso, como temos muitos produtos de cerâmica, a logística ainda é cara e complicada, sem falar em impostos e em toda a burocracia envolvida. Por enquanto, deixamos esse projeto de lado. Entretanto, acreditamos que o turismo de experiência ainda tem um grande potencial na região. Já temos inclusive uma parceria com a Global Routes, uma ONG norte-americana cujo objetivo é proporcionar educação experimental e serviço internacional  com respeito às comunidades locais.


Fotos cedidas pela Raízes Desenvolvimento Sustentável
Turismo de experiência no Vale: da deliciosa culinária ao aconchego e hospitalidade dos moradores locais


9) Vocês conseguem algum tipo de incentivo por serem um negócio social? O capital investido ainda é todo próprio?
Não recebemos incentivos. Esse é um dos nossos grandes desafios atuais. Como não somos uma ONG, mas estamos registradas como empresa, temos dificuldade de captar recursos governamentais. A maioria dos editais, tanto de incentivos do governo quanto de prêmios das Fundações ligadas a grandes empresas, não incluem a categoria negócio social e nós não podemos nos inscrever. Esse é um diferencial do prêmio da Folha, que aceita inscrições dessas empresas sociais que compõem o que chamamos de setor 2,5. 
O setor 2,5 é um negócio que gera impactos socioambientais positivos, mas que também pode dar lucro. Nós já pensamos em mudar nosso status para ONG, a fim de ter acesso a esses editais, mas ainda acreditamos que o negócio social é positivo e estamos lutando para um reconhecimento maior da importância do setor 2,5.
Nosso capital ainda é totalmente próprio, mas já existem fundos de investimento no mercado que incentivam pequenas empresas que geram impactos sociais, como é o caso das aceleradoras Artemísia e SWAP, por exemplo. Isso já mostra que o setor tem potencial de crescer.


Pra terminar, a Marianne me deu algumas dicas de leitura, que eu recomendo a todos que se interessam pelo assunto sustentabilidade e por negócios sociais:

 Bornstein, David, "How to Change the World", Ed. Record, 2005









Yunus, Muhammad, "O Banqueiro dos Pobres", Ed. Ática, 1997















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